domingo, 26 de setembro de 2010

Querela política outra vez?

Mal terminei de escrever um texto sobre candidatos pouco convencionais neste pleito 2010, mal as letras descansaram no fundo da página e de repente me deparo com uma matéria no WSCOM (http://www.wscom.com.br) intitulada "Promotor quer fazer teste de leitura e ditado com Tiririca". E mais uma vez, tomarei a liberdade e reproduzir alguns trechos da matéria onde se lê o seguinte:

“A Revista ÉPOCA publica neste sábado (25) reportagem que revela indícios de que o candidato a deputado federal Tiririca (PR) não sabe ler nem escrever. A revista traz declarações do humorista Ciro Botelho, que escreveu um livro assinado por Tiririca, e descreve situações em que o candidato demonstrou, "no mínimo, enorme dificuldade de leitura. O promotor da 1ª Zona Eleitoral de São Paulo, Maurício Antonio Ribeiro Lopes, anexou a reportagem a duas representações que está levando à Procuradoria Regional Eleitoral e à Corregedoria do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo. Ele declarou a ÉPOCA que a reportagem coloca sérias dúvidas sobre a alfabetização do candidato e propõe um teste: "Estou sugerindo que se faça um ditado com um trecho da Constituição e depois se peça a ele que leia um outro trecho. Se ele não conseguir fazer o teste, a candidatura poderá ser impugnada". O promotor quer testar Tiririca já na próxima segunda-feira (27)”.


E o motivo de se fazer tal teste não é omitido: 

“De acordo com as pesquisas, Tiririca pode ser o deputado federal mais votado do país no dia 3 de outubro, com potencial para alcançar mais de um milhão de votos. Com esse número de sufrágios, o palhaço pode garantir mais quatro ou cinco cadeiras na Câmara para outros candidatos de sua coligação, formada por PT, PC do B, PR, PRB e PT do B”.

O promotor abre, novamente, penso eu, uma polêmica. Bem, se uma pessoa analfabeta não está apta para concorrer a um cargo eletivo, então, baseado em que, por exemplo, defenderia o promotor que ele, do contrário, estaria apto a votar (a menos, claro, que o promotor defenda a tese de que votar seja menos importante e menos perigoso do que ser votado)? Não seria o caso, então, de interditarmo ao pleito, caçando o sufrágio aos analfabetos (algo em torno de 16 milhões de pessoas)? Mas, a preocupação REAL do promotor de justiça não estaria escamoteada, um pouco difiusa se entendermos que lugar de "palhaço analfabeto" é no circo? Por que, então, permitir que o, supostamente, "palhaço analfabeto" (Tiririca) seja votado e, acima de tudo, que seja votado por centenas, milhares de pessoas? Não estaria aí um ato autoritarista, uma herança da ditadura (1964-85) registrada na fala do promotor de querer pôr à prova, através de uma pedagogia imbecil, a razão, o conhecimento do palhaço? Afinal, a política, assim, não se guia por uma economia politicamente sedutora dos que durante séculos dominaram? Ainda não é o culto da razão? Razão esta aprendida nos bancos escolares? Mas, diga-me, por favor, onde é que se aprende a ser humorista? Onde é que se aprende a ser palhaço? Pierre Bourdieu nos apresenta em "A economia das trocas linguísticas" que falar bem, escrever bem nada tem de natural, nada tem de espetacular, pois não foi o povo quem inventou as regras da gramática, nem as sinuosidades da linguísticas e ainda, assim, foi submetido por esta tecnologia que ele em outro lugar chamou de o poder simbólico. Pois, o promotor de justiça, neste caso, querendo justificar o seu preconceito e prestar cultos à razão socrática, ao logos platônico, vicia, corrompe um preceito constitucional (Estado Democrático de Direito), derruba sem timidez a idéia de que os únicos habitates que a "Casa do Povo" pode receber são os patrões brancos e letrados mesmo quando o POVO entende, reage e se identifica com aqueles que são a sua cara.

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