quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A escola silenciada

Sou professor pelo menos há 20 anos. Iniciei minha carreira no magistério dando aulas de musicalização infantil. Sou formado em História pela Universidade Estadual da Paraíba (a briosa UEPB), sou Mestre e Doutor em Sociologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Além de tudo isto, sou formado no antigo curso normal (hoje considerado técnico pedagógico). Bom, como vocês percebem eu passeio por todos os níveis em relação à educação. Contudo, ultimamente, tenho lamentado bastante a insistência da ESCOLA em manter o seu padrão oitocentista em relação aos métodos e técnicas aplicados em sala de aula. A escola - não sei se vocês sabem - é uma INSTITUIÇÃO TOTAL e VIOLENTA. Talvez, nenhum pai honestamente consciente e de bom grado levaria o seu filho para um lugar onde soubesse que ele seria violentado, pois é, é CEGO, pouco participativo e mantém-se às margens da realidade escolar do próprio filho cabendo-lhes apenas a exigência de boas notas (entregue pelas escolas em forma de boletim informativo). Este pai - ou pais - talvez, nunca tenha se perguntado se o sistema de avaliação por NOTAS é o mais interessante, é a melhor tática, é o mais estratégico, enfim, se este sistema oferece realmente a realidade do aprendizado de seu filho, ou antes, se ele reflete apenas o autoritarismo disciplinar das instituições totais - a escola é uma delas - e nada mais. Na prática a escola FUNCIONA como um estabelecimento penal, porque a sua funcionalidade, a sua existência, a sua essência está baseada numa complexa rede de disciplinarização social. Ou seja, um órgão - para ser um pouco organicista - que deve desempenhar a sua função de órgão: manter a ORDEM nesta dimensão da vida social. A escola tem por função essencial reduzir todos à uniformização e para tanto ela se serve de seus mecanismos de opressão, suas micropenalidades em relação a tempo (gazeamento de aula, qualquer tipo de atraso sem justificação adequada, etc.), em relação às atividades (deixar de realizar a tarefa, desobediência em sala de aula, negligência, etc.), em relação aos modos de ser (grosserias, bullyngs, desobediências, etc.), em relação ao corpo (gestos indecentes, sujeira, erotismo ou sensualidade), em relação à sexualidade (intolerância a determinados comportamentos classificados como indecentes, imorais, indecorosos, agressivos, despudorados). Nesta máquina de produzir VIOLÊNCIA está toda uma taxonomia - permita-me assim considerar - desta realidade escolar que vai desde e, timidamente, vexações morais até privações ligeiras de liberdade (como não sair para o intervalo).  Mas, não é sobre as micropenalidades escolares que desejo discutir especificamente neste texto. 
Quero discutir a respeito das relações de poder que são estabelecidas na ESCOLA gerando ilhas de silêncio e manufaturas de violência que partem da própria instituição - que organiza tudo de cima para baixo - influenciando e empoderando os seus professores a ser seus verdadeiros carrascos. Gostaria de ter tempo suficiente e leitor adequado para estabelecer um franco, honesto diálogo. Mas, por onde andei só encontrei professores representando e colonizados pelo status quo dominante. 
É, justamente, no século XVIII, ao lado do ILUMINISMO, da primeira Revolução Industrial e, provavelmente, diante do nascimento de um modelo de Sexo Binário, bem como, das primeiras manifestações feministas que nasce o sistema DISCIPLINAR. Não vou me aprofundar nele. Quero apenas recortar o tema EDUCAÇÃO. A instituição escolar adota o modelo . sistema militar. Não é estranho à realidade escolar o modelo jurídico da punição do séc. XVIII, como por exemplo, a multa, o açoite, a masmorra. O regulamento francês de 1766 previa para a infantaria que os soldados de classe importante caso mostrassem "negligência ou má vontade serão enviados para a última classe" (cf. Foucault, 2006: 150). Sobre o sistema ou a atribuição de NOTAS lembra-nos ainda Foucault que

                   [...] em vez da simples separação do proibido, como é feito pela justiça penal, temos uma
distribuição entre pólo (sic) positivo e pólo (sic) negativo; todo o comportamento cai no campo das boas ou más notas, dos bons e dos maus pontos. É possível, além disso, estabelecer uma quantificação e uma economia traduzido em números. Uma contabilidade penal, constantemente posta em dia, permite obter o balanço positivo de cada um. A "justiça" escolar levou muito longe esse sistema, de que se encontram pelos menos rudimentos no exército ou nas oficinas (Foucault, 2006: 151)

Segundo ainda os Irmãos das Escolas Cristãs, citado por Michel Foucault,

              Um escolar por exemplo terá por castigo quatro ou cinco perguntas do catecismo para copiar; ele poderá se libertar dessa penitência mediante alguns pontos de privilégios; o mestre anotará o número para cada pergunta... Valendo os privilégios um número determinado de pontos, o mestre tem também outros de menor valor, que servirão como que de troco para os primeiros (Foucault, 2006: 151)

Como se pode perceber, a instituição de uma plataforma de NOTAS e PONTOS ainda não corresponde a um sistema AVALIATIVO, senão, punitivo e moralizador. Ainda segundo Michel Foucault,

              [...] pelo jogo dessa quantificação, dessa circulação dos adiantamentos e das dívidas, graças ao cálculo permanente das notas a mais ou a menos, os aparelhos disciplinares hierarquizam, numa relação mútua, os "bons" e os "maus" indivíduos (Foucault, 2006:151)

A estratégia que possibilitou a transposição de um modelo punitivo-moral ligado a comportamentos está ligada a valor. No oitocentos o interesse era a ORTOPEDIA DOS CORPOS, seu aproveitamento econômico, sua docilidade política. Provavelmente, vocês gostaria que eu aprofundasse este texto, mas já não há mais tanto espaço para isto. Gostaria apenas de lembrar a vocês que este modelo disciplinar continua em plena VIGÊNCIA. A nota não expressa o correlato da inteligência, da habilidade, da técnica. Ela marca, isto sim, o que do ponto de vista do poder é aceitável ou  não.

REFERÊNCIA

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: História da violência nas prisões. 31ª edicação. Editora Vozes, Petrópolis, 2006.